O Peso das Dinâmicas Ocultas: Quando o Emaranhamento nos Desliga
No consultório, quando uma educadora me diz que "não se importa mais", vejo o momento em que o sistema grita: Basta. Mas, por trás desse "não me importar", muitas vezes esconde-se a repetição de um padrão.
A Visão Sistêmica nos ensina que, muitas vezes, estamos emaranhados com a história de nossos antepassados. Se na sua linhagem houve mulheres que precisaram se anular completamente para sustentar o sistema familiar, ou se o "salvar o outro" foi a única forma encontrada para pertencer, o seu corpo profissional hoje está apenas repetindo um roteiro ancestral.
A Dinâmica Oculta por trás do Aluno e do Mestre
Você se pergunta: será que estou levando em consideração o que está por trás da atitude do aluno? Sim, e é aqui que a complexidade se revela. O aluno que desrespeita, que agride ou que não se engaja, muitas vezes está, ele mesmo, mergulhado nas dinâmicas ocultas de sua própria família.
Muitas vezes, a sala de aula se torna um grande teatro sistêmico:
O aluno como sintoma: A agressividade dele pode ser um "peso" que ele traz de casa, algo que ele carrega para que a família não precise olhar para a própria desordem.
O professor como alvo: Ao se colocar no lugar de "salvadora", você, sem querer, tira do aluno e da família dele a responsabilidade pelo destino deles. Isso gera uma desordem no fluxo da vida. Quando você tenta salvar o que não pode ser salvo, o sistema reage com hostilidade, pois a sua tentativa de intervenção quebra a hierarquia natural onde cada um deve arcar com o seu próprio peso.
Reflexão Terapêutica
O "desligamento" que você sente é o seu psiquismo tentando restabelecer uma ordem. A indiferença que dói é, na verdade, uma borda de proteção.
A partir da Neuropsicologia Afetiva, entendemos que seus vínculos primários configuraram o seu sistema de segurança. Se você aprendeu que o amor estava condicionado ao sacrifício, seu cérebro entende que "parar de se sacrificar" é um risco à sua sobrevivência emocional. O luto pela "versão salvadora" de si mesma é, portanto, um rito de passagem necessário: você está deixando de ser a "mãe" dos seus alunos para voltar a ser apenas a educadora — um papel muito mais leve e possível.
A Cura pelo Pertencimento e Pelo Lugar
Na nossa prática integrativa, não buscamos apenas a "flexibilidade psicológica" da ACT, que te ajuda a agir de acordo com valores, mas buscamos o ajuste de lugar. Você precisa se colocar no seu lugar de educadora, e deixar que o aluno e a família dele ocupem o lugar deles.
Quando você tenta carregar o emaranhamento de um aluno, você se torna "grande" demais para o seu papel e ele se torna "pequeno" demais. A ética, aqui, passa a ser o autocuidado. Honrar a sua história é permitir que os outros, inclusive seus alunos, carreguem os seus próprios pesos.
Se você está em um lugar de "desligamento", saiba que ele é um portal. É o convite para soltar o que não é seu. Deixar de se importar com a desordem do outro é o primeiro passo para que você possa, finalmente, olhar para a pessoa mais importante dessa rede sistêmica: você mesma.
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