quarta-feira, 31 de dezembro de 2025

Quando os Fios se Rompem: perdas, olhares e recomeços ao fim de 2025




Quando os Fios se Rompem: perdas, olhares e recomeços ao fim de 2025

Introdução

O fim de um ciclo costuma nos convidar a olhar para trás com mais cuidado. Há aquilo que foi vivido, aquilo que se perdeu e aquilo que nos transformou — muitas vezes sem que percebêssemos no momento.

Ao encerrarmos 2025, carregamos não apenas histórias individuais, mas também marcas de experiências coletivas que atravessaram famílias, comunidades e cidades inteiras. Este texto é um convite a olhar para esse tempo com mais consciência e respeito, compreendendo como os vínculos e os olhares que lançamos sobre a vida podem curar ou adoecer.

A partir de uma visão sistêmica, propomos aqui uma reflexão sobre encerramentos, aceitação e recomeços possíveis.


O ano de 2025 também foi um ano em que muitos fios se romperam.

Alguns de forma silenciosa, dentro de nós.
Outros de maneira abrupta e coletiva, atravessando famílias, cidades, comunidades inteiras e territórios marcados por acontecimentos da natureza, perdas humanas e rupturas profundas.

Fios que sustentavam certezas, rotinas, lares, vínculos e sentidos foram colocados à prova.

E quando esses fios se rompem, somos inevitavelmente convocados a olhar.
Não apenas para o que se perdeu, mas para como olhamos para aquilo que foi vivido.

É nesse ponto que se revelam os olhares que curam
e os olhares que adoecem.

Os vínculos invisíveis que sustentam a vida

Os vínculos não se restringem às relações visíveis.
Eles habitam um campo mais amplo: emocional, familiar, ancestral e coletivo.

São fios que atravessam gerações, histórias não ditas, lealdades invisíveis, amores interrompidos e destinos compartilhados.

Quando o fio da esperança se fragiliza, alguns se recolhem no desamparo.
Outros, tocados pela dor, despertam para a solidariedade, para o cuidado e para a entrega.

O mesmo rompimento pode gerar fechamento ou abertura.
Tudo depende do olhar que se lança sobre a experiência.

Um olhar rígido tende a adoecer.
Um olhar que reconhece e acolhe, transforma.

Quando o amor se rompe: separações, lutos e abismos

Para muitos, foi o fio do amor que se rompeu.

Separações, perdas, afastamentos e silêncios abriram abismos difíceis de atravessar. Nessas travessias, não basta compreender — é preciso sustentar.

A dor que não é vista tende a se repetir.
O luto que não é acolhido tende a se cristalizar.

Olhares que curam não apressam o processo.
Não exigem superação imediata.
Não oferecem explicações fáceis.

Eles permanecem.
Mesmo quando não há respostas.

Perdidos dentro de si: o desejo de voltar ao lar

Somos viajantes do tempo.

Em períodos de instabilidade, muitos se sentem perdidos dentro de si mesmos. Há um desejo silencioso que atravessa a experiência humana: voltar ao Lar.

Esse lar não é apenas um lugar físico.
É um estado interno de pertencimento, proteção e reconhecimento.

Muitos não sabem exatamente onde ele está — apenas sentem sua ausência.

Quando esse lugar interno se fragiliza, o sofrimento se intensifica.
E olhares que julgam, pressionam ou minimizam a dor apenas aprofundam o desencontro.

Já um olhar que diz, mesmo sem palavras,
“eu vejo você”,
inicia um movimento de reorganização.

Rupturas coletivas e transformação da consciência

As rupturas vividas nos últimos anos, intensificadas em 2025, escancararam o melhor e o pior dos olhares humanos.

Onde faltou presença, muitas relações adoeceram.
Onde houve escuta, flexibilidade e verdade, outras se fortaleceram.

Tudo o que precisou morrer, morreu.
Não como castigo, mas como passagem.

Perdas e ganhos caminham juntos, ainda que nem sempre possam ser percebidos ao mesmo tempo. Um olhar consciente é aquele que consegue sustentar essa ambiguidade sem negá-la.

Nada será como antes — e isso também faz parte da vida

Nada será como antes.

E resistir a essa realidade tende a adoecer.

Aceitar os fins de ciclo não significa concordar com as perdas, mas reconhecer que a vida seguiu seu curso — mesmo quando doeu.

Quando insistimos em olhar o presente com os olhos do passado, ficamos presos.
Quando permitimos um novo olhar, algo em nós começa a respirar.

Que a taça desta travessia esteja preenchida de presença, consciência, resiliência e renovação.
Que o amor — esse convidado silencioso — seja lembrado e convidado a ocupar espaço.

Ancestralidade, gratidão e o valor dos encontros

Honrar nossos ancestrais é reconhecer que a vida chegou até nós por inúmeros caminhos.

Pais, famílias, professores, mestres e orientadores sustentaram — consciente ou inconscientemente — a possibilidade de estarmos aqui.

A gratidão não apaga a dor.
Mas a integra.

Ela amplia o campo interno
e devolve dignidade à experiência vivida.

Se o tempo é arte, o encontro é sua mais bela composição.
São os encontros — e também os desencontros — que desenham, nas paredes do tempo, os cenários que nutrem ou ferem a alma humana.

Encerrar um ciclo também é um gesto interno

Ao final de um ano como 2025, marcado por perdas coletivas e transformações profundas, somos convidados a algo que vai além da compreensão racional.

Um gesto interno de reconhecimento.

Como este é um espaço de olhar sistêmico, ao final de cada ciclo propomos um exercício simples e profundo.

Convidamos você a imaginar o ano que se encerra — 2025 — e, internamente, curvar-se com amor e respeito por tudo o que foi vivido.
Pelas perdas e pelos ganhos.
Pelo que foi possível compreender e pelo que ainda não encontrou sentido.
Pelo que feriu e pelo que fortaleceu.

Esse gesto não é de submissão.
É de reconhecimento.

Reconhecer a vida como ela foi.

Em seguida, abrimos o coração para o novo ciclo, dizendo um sim ao que chega.
Um sim consciente, que não nega as dificuldades, mas nos prepara para o caminho da aceitação — especialmente nas situações mais penosas — e nos devolve força para atravessar o que ainda irá surgir.

Encerrar um ciclo assim nos devolve dignidade.
Iniciar outro, com esse mesmo respeito, nos devolve presença.

Que, mesmo em meio às perdas,
o amor continue sendo esse lugar interno
onde sempre cabe mais um.

Cida Medeiros



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