quarta-feira, 14 de janeiro de 2026

Honrar a Vida sem Aceitar o Abuso

 


 O "Sim" sistêmico e o limite do trauma.

Dizer "Sim à Vida" é um dos conceitos mais profundos e, paradoxalmente, mais mal compreendidos da visão sistêmica. Para muitos que carregam as marcas de uma infância sob abuso ou negligência, essa frase soa como uma sentença de submissão. Mas a cura real não nasce da obediência ao padrão de dor; ela nasce da diferenciação.

A neurociência do trauma, através de autores como Bessel van der Kolk, nos mostra que o corpo guarda as marcas de relacionamentos inseguros. Quando a fonte de proteção é também a fonte de medo, o sistema de alarme do cérebro é reconfigurado, gerando uma hipervigilância constante. Nesses casos, o "Sim" sistêmico não é um "Sim" ao comportamento abusivo dos pais, mas sim um reconhecimento de que a força biológica da vida chegou até você através deles — e para que essa vida floresça, você pode (e muitas vezes deve) dizer um "Não" firme ao ciclo de violência.

Curar o olhar significa entender que você não é o que lhe aconteceu. Ao estabelecer uma Base Segura interna, você deixa de ser refém das memórias traumáticas e assume o papel de autor da sua história. A reconciliação que importa é, antes de tudo, com a sua própria existência.

Cida Medeiros

Psicoterapeuta Integrativa e Sistêmica

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